Algum dia tinha que falar um pouco dos meus, neste caso, de meu Pai Elias Lopes Milhazes. Foi o chefe das oficinas–auto da Sociedade Agrícola do Cassequel. Funcionário exemplar e dedicado, foi acima de tudo um ser humano de dimensão invulgar.Homem do Norte (Nascido na Póvoa de Varzim), teve uma infância e adolescência difíceis, nem sempre manifestando interesse em partilhar as desventuras desse tempo passado. Desse passado que fui reconstruindo através de pequenos detalhes revelados, não demonstrava o meu Pai nenhum orgulho particular, preferindo mantê-lo na sombra e, às vezes, afigura-se-me que a sua vida só começou verdadeiramente quando encontrou a minha Mãe lá para os lados de Guimarães (Caldas das Taipas), após um período incerto de deambulação que se prolongou até ter encontrado uma família de acolhimento.
Embarca para África, tendo chegado no início da década de 50 ao Lobito. Muda-se para a Catumbela e passa a ser funcionário da Cassequel.
Casa-se com minha Mãe (por procuração) em Agosto. Foi Pai de três filhos, dois rapazes e uma rapariga (João Carlos, Maria Isabel e Victor Manuel). Inicialmente viveu numa casa junto ao rio Catumbela (Namano), depois vai morar para o 27 (Km 27, Damba Maria), nas pescarias do Cassequel. Volta à Catumbela para morar junto à Estação dos CFB na Catumbela e finalmente junto à igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Av. Da República.
Homem sem vaidades e pacato (fato-macaco sempre vestido), lá ia e vinha do seu dia de trabalho, por vezes na sua “burra”, outras de motinha “Pusch” e, mais para o fim, no seu Renault R8. A palavra "não” era-lhe difícil pronunciar.
Das muitas recordações que tenho dele, uma ficou-me gravada para sempre:
- Certa vez, é-lhe proposto fazer um carro, o mais parecido possível com um Fórmula 1, proposta essa vinda do Director da Cassequel, Eng. Serpa Pimentel, carro esse para ser oferecido ao filho mais velho, Rodrigo Serpa Pimentel.
Mãos à obra! O mestre e criativo Elias, projecta o bólide! Nada de “Lay-outs”, tudo feito ali nas bancadas, imaginação e técnica puras! Socorre-se dum motor de mota “AJS”, grande máquina na altura, debitando para aí uns 80CV e atingindo uns 140Km/h. Estava encontrado o engenho que daria motricidade a tal “seta ferrárica”. Parte-se para o chassis, engenhosamente elaborado e finalmente a carroçaria (feita pelo Sr. Américo – bate chapas). Pinta-se de vermelhinho Ferrari, coloca-se o Nº 1 e vamos a testes. Um empurrão e ignição feita! Tremendo de um berro, qual trovão, fruto daquele motor único!
Vai-se para o espaço plano mais próximo! Seria a área do “cavalo branco”, em terra batida, local nada propício a um teste ao projecto. A coisa não corre mal, mas as afinações finais e a aprovação é feita na pista do aeroporto do Lobito. Aí sim, o mestre regozija-se com o resultado da sua invenção, tripulando e fazendo troar aquela inaudita peça mecânica, transparecendo no final um gáudio interior perceptível no brilho que os seus olhos emanavam.“A coisa havia sido terminada”.
Do carro, algumas fotos foram tiradas ficando para a posteridade apenas essa imortal imagem a preto e branco do carro devidamente tripulado pelo Rodrigo Serpa Pimentel (Foto cedida pelo próprio). Presto esta pequena homenagem, em meu nome, em nome dos meus irmãos, esposa, netos e nora, a um homem que foi honesto, trabalhador, bom pai (severo por vezes, sabendo-se lá o que lhe atormentava a alma …!) e marido e que, por infortúnio da vida não disfrutou do prazer de ser o avô próximo que tanto desejou! Que sina meu Deus!
O “ Mestre” faleceu em 13 de Outubro de 1981 num brutal acidente de viação, deixando-nos aos 61 anos. Vi-o pela última vez na despedida em Setembro de 1975, justamente naquela pista do aeroporto do Lobito, local onde a sua “obra-prima” havia sido testada e entregue.
Por teres sido o Pai e Homem que foste, obrigado meu “Velho”!
Nota:
Os agradecimentos da família Milhazes ao Joel Barbosa, que intercedendo junto de seu irmão Pedro Barbosa casado com uma filha (Teresa) do antigo Director da Cassequel e que ao abordar o Rodrigo Serpa Pimentel (seu irmão mais velho), este, num nobre acto de respeito e solidariedade, nos cedeu a foto do carro com o próprio ao volante. Agradeço também ao Rui Bizarro o facto de ter sido intermediário no “resgatar” desta memória que nos é tão cara.
João Carlos A.S. Milhazes
Victor Manuel Amâncio S. Milhazes
Twapandula







































